Usos possíveis de acervos digitais na sala de aula do ensino básico e na educação não formal - Teresa Moura - Escola Sá Pereira
Gostaria de agradecer o convite aos organizadores do evento, em especial a Henrique Faulhaber, e manifestar o prazer de participar dessa mesa compartilhando a experiência educativa de nossa escola, a Sá Pereira. Uma pequena escola particular, situada em Botafogo, que atende a crianças da Educação Infantil e do primeiro segmento do ensino fundamental. A maioria, filhos da classe média, de profissionais liberais, professores universitários e artistas. Acho importante trazer o contexto da experiência que pretendo relatar por reconhecê-lo como bastante privilegiado e diverso da realidade social em que vive grande parte das crianças brasileiras. A equipe de professores também se encaixa nessa caracterização, possuem formação universitária, alguns com especialização e mestrado.
A proposta pedagógica tem uma orientação humanista, buscando relações éticas e democráticas entre todos os envolvidos. Desde sua fundação, em 1948, a escola dispensa uma atenção especial às artes, lutando para que o ensino das diferentes linguagens artísticas tenha, dentro da grade curricular, o mesmo status que as demais disciplinas escolares, como preconiza a lei de diretrizes e bases, sancionada em 1996, dizendo que este "constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos"
Buscamos, assim, uma convivência participativa e crítica com a diversidade cultural.
Para isso, valorizamos a postura reflexiva dos professores, o que acreditamos favorecer um constante esforço de atualização e busca de aperfeiçoamento. Uma inquietação constante nos faz sentir que nunca estaremos prontos, que nosso projeto estará sempre em movimento, aberto a novas contribuições.
O tema proposto para essa mesa me fez retroceder no tempo e reviver o quanto o surgimento de novas tecnologias trazia, no passado, ameaça, discussões e insegurança aos educadores e ao universo escolar. Lembrei de ter participado de uma mesa, no início da década de 90, para discutir o uso do vídeo na escola, quando a Fundação Roberto Marinho disponibilizou uma excelente coleção, chamada Vídeo Escola. O acervo, composto de documentários, animações, vídeos de divulgação científica e artísticos, era acompanhado de um catálogo muito bem estruturado, com diferentes índices que facilitavam a busca a partir de diversas demandas pedagógicas. O material foi um instrumento valioso, possibilitando muitos desdobramentos didáticos e, até hoje, é utilizado por nós. Na época, pairava no meio pedagógico o temor do quanto o vídeo poderia suplantar a função do professor, e se pensava em estratégias que pudessem garantir o bom uso. Hoje duas coisas nos parecem claras: a primeira é que é impossível não absorver as novas tecnologias como ferramentas poderosas no auxílio da aquisição e produção de conhecimentos e a segunda é que o professor tem, ao contrário do que se pensava, uma função de mediador, de importância singular.
Os recursos tecnológicos de que dispomos hoje favorecem, cada vez mais, novas experiências, valores, maneiras de pensar e interagir com os outros e com as diversas produções humanas.
Essas experiências atingem a sociedade como um todo, não deixando de fora as crianças e os jovens que, muitas vezes, estão mais familiarizados e habituados com os meios eletrônicos, desestabilizando a idéia de que são sempre os mais velhos que têm a ensinar aos mais novos.
Outro dia, na escola, discutíamos em equipe a possibilidade das crianças de um quinto ano (9, 10 anos) sistematizarem o resultado da pesquisa que realizaram sobre os povos pré-colombianos numa página interativa. Pensávamos em quais suportes técnicos e pedagógicos seriam necessários para que a tarefa se tornasse possível para elas. Mas qual não foi nossa surpresa quando, ao lançarmos a idéia para o grupo, ouvimos: “A gente sabe fazer isso. Nossa turma tem um blog”.
Dessa forma, vendo as próprias crianças desenvolverem suas habilidades e competências de maneira autônoma, independente das orientações e do controle dos professores e, muitas vezes dos adultos, nos deparamos com os reflexos dos usos que fazem dessas novas tecnologias, evidenciando mudanças e transformações na linguagem que absorve características novas de ver, dizer e compreender o mundo. Percebemos, então, sinais típicos dessa nova tecnologia, nas diferentes produções escolares, sejam elas escritas, musicais ou imagéticas. Vocábulos, signos, símbolos, abreviaturas, estrutura do discurso são transformados por essa transposição comunicativa, causando certo estranhamento aos professores que insistem em permanecer afastados desses meios e aos projetos pedagógicos que se mantêm calcados numa perspectiva mais normativa do ensino, principalmente da língua portuguesa.
Acreditamos que as crianças são atores sociais, que a infância, ou melhor as diferentes infâncias, se levarmos em conta as questões de gênero, classe social, cultura etc são, não só consumidoras, mas também produtoras de cultura. Uma cultura diferente da do adulto, mas que não nasce no universo simbólico exclusivo da infância. Segundo Sarmento e Pinto (1997), esse universo é permeável, influencia e é influenciado pelo "processo crescente de institucionalização da infância e de controle de seus cotidianos pela escola, pelos 'tempos livres' estruturados e pelas práticas familiares, e resulta da assimilação de informação e modos de apreensão do real veiculados pela mídia, ou por outros meios de disseminação da informação" como os jogos, sites, blogs, orkut, entre outras possibilidades oferecidas pelo mundo contemporâneo e suas novas tecnologias.
A internet nos obriga, então, a repensar nossa experiência e relação com a escrita, com a oralidade, com a imagem e com nossas práticas mais rotineiras. O novo meio nos instiga à construção de uma nova expressividade, de novas maneiras de aprender, pesquisar, registrar, produzir e se divertir. É uma forma veloz, dispersa, intensa, que nos traz muitos estímulos simultâneos desafiando nossos interesses e atenção.
Certamente não cabe à escola negar esse processo, mas sim pensar de que forma poderemos tirar partido e benefício dessa convivência. Nos aproximar, tentar conhecer, compreender e, se possível compartilhar os usos que as crianças fazem da internet parece ser o caminho mais acertado. Aceitar esse desafio significa ganhar a permissão de participar, interferir, contribuir, ampliar as experiências infantis, trazendo um repertório cultural que acreditamos ser de qualidade para ser compartilhado com elas.
Tentanos alguns caminhos, e há dois anos fizemos um movimento de contra corrente. Desmontamos o laboratório da escola e dispersamos, pelas salas de aula, as máquinas que dispúnhamos. Tentamos, com isso, uma maior inserção da ferramenta no cotidiano das crianças, professores e funcionários que, antes, só tinham acesso ao equipamento em tempos estipulados pela grade de horário escolar. A máquina está lá, na sala de aula de cada turma, na biblioteca, na sala dos professores, no salão de música e em muitos outros espaços da escola, atendendo a múltiplas funções. Além de escrever, desenhar, jogar, assistir a vídeos, ouvir música, servem como instrumento de acesso e busca de informações. As crianças tiram dúvidas, as delas e as dos professores, buscam informações sobre os projetos de pesquisa que estão desenvolvendo nas diferentes disciplinas, capturam imagens estáticas ou em movimento que possam ilustrar seus estudos, enviam email da escola para casa e de casa para a turma, recebem mensagens de familiares, pessoas e instituições que por iniciativa delas e dos professores se tornam parceiros do processo de descoberta e aprendizagem, se comunicam com comunidades distantes etc. Percebemos o potencial comunicativo dessa ferramenta que, dentro em breve, quando a inclusão digital se tornar realidade, poderá colocar crianças de lugares muito distantes em rede.
Pensando no enriquecimento das experiências culturais que o uso da internet vem promovendo na escola, lembro o quanto o acervo de nossa biblioteca e discoteca tem sido ampliado a medida que qualquer programa de busca nos traz, a partir do nome do autor ou de um simples verso, a poesia, a letra ou até mesmo diferentes interpretações da música que gostaríamos de conhecer. A dificuldade de assistirmos espetáculos de dança dentro do horário escolar, começa a ser minimizada pelos vídeos que acessamos no youtube ou em outros programas silmilares. Passou também a ser mais possível conhecer festas e manifestações populares distantes de nossa comunidade, estilos arquitetônicos que não podemos encontrar em nossa cidade, passear por museus nacionais e internacionais.
É bastante vasto o material que já se pode encontrar na rede. Sites como o www.dominiopublico.org, o da Biblioteca Nacional, o do Instituto Moreira Sales, ou dos próprios artistas, nos aproximam cada vez mais da música, da dança, da literatura, da fotografia e das demais manifestações artísticas e culturais.
Motivados pelo PAN, nossas crianças desenvolvem este ano um projeto de pesquisa sobre diferentes aspectos das Américas. Assim conheceram artistas americanos e suas obras. Refletiram sobre as influências da arte pré-colombiana sobre a obra de artistas contemporâneos, conheceram estilos de dança e música como cueca chilena, o londó peruano, a cumbia colombiana, além de informações históricas, políticas e geográficas sobre os diferentes países que compõem nosso enorme continente. Familiarizaram-se com a língua espanhola ouvindo a música e da poesia criada por nossos vizinhos. Tudo isso seria muito difícil sem a internet.
Para planejar suas aulas e produzir materiais didáticos que possam nortear a pesquisa dos alunos, os professores também se tornam cada vez mais, usuários competentes dessa tecnologia, que vem ampliar o acervo de vídeos, livros, cds entre outros portadores de informação de que dispomos.
Acredito que a ampliação do acervo cultural de língua portuguesa digitalizado, com uma catalogação adequada, vai facilitar, cada vez mais, o acesso dos alunos e professores, podendo favorecer a fruição e o uso da tecnologia, democratizando o acesso à cultura, ainda tão precário quando pensamos a arte e a cultura como um patrimônio construído ao longo da história humana e direito de todos.
Sabemos que não é tarefa apenas da escola favorecer o acesso à cultura, que muitas outras instituições propõem um caminho para a convivência reflexiva com a cultura e com a arte. Quanto mais ampla for, em quantidade e diversidade, essa convivência, maiores possibilidades surgirão de aprimorar a sensibilidade e a capacidade de apreciação e produção. Certamente outras instituições podem exercer essa função: museus e centros culturais são, por exemplo, espaços privilegiados para desenvolver uma relação mais elaborada e significativa entre as crianças, a arte e a cultura.
Assistimos, nas últimas décadas, a uma profunda transformação na relação dos museus de arte e centros culturais com as escolas. As visitas passaram a ser incluídas nos planejamentos escolares para o ano letivo, tanto aos acervos permanentes quanto aos temporários, fortemente divulgados pela mídia. A partir dessa demanda os museus começaram a organizar departamentos educativos para mediar a sua relação com as escolas.
As funções de conservação, investigação e difusão exercidas pelos museus estiveram, durante muito tempo, comprometidas apenas com o público erudito, excluindo uma camada significativa da população. Não podemos ignorar a maior aproximação dos museus com as elites e a sua distância do mundo das "pessoas comuns". As transformações são visíveis, mas em relação à acessibilidade e democratização dos acervos guardados nesses espaços, constatamos que ainda há muito a fazer.
É importante lembrar que poucas grandes cidades concentram, no Brasil, quase a totalidade dos equipamentos culturais. E que, mesmo nelas, escolas de bairros periféricos e de municípios vizinhos precisam se deslocar grandes distâncias, lidando com grandes dificuldades, para estarem presentes em exposições nacionais e internacionais de grande porte.
Muitas vezes, para aproveitarem o transporte e a oportunidade, propõem às crianças uma verdadeira maratona cultural, que as leva, por cansaço e inadequação da proposta, a uma postura blasé e desinteressada, fazendo com que a intenção obtenha um resultado inteiramente oposto.
A digitalização desses, entre outros acervos, poderá facilitar e proporcionar o acesso dos diversos públicos, estimulando essas instituições a exercerem a responsabilidade social de compartilhar, preservar e valorizar seu patrimônio.
Não podemos deixar de pensar sobre os aspectos mercadológicos e ideológicos. Todas as obras e produções culturais encerram conteúdos sociais, políticos, religiosos de sua época. Outros meios de acesso à arte e à cultura, como por exemplo as publicações destinadas ao público infantil de diversas editoras e mesmo as promoções dos periódicos jornalísticos que optam pelo tema em questão, fazem escolhas que nunca, ou quase nunca, prestigiam a produção nacional e muito menos a contemporânea. Os grandes mestres europeus e da América Anglo-saxônica estão sempre sendo revisitados e divulgados. Por que são sempre eles os eleitos? Quantos nomes nacionais das artes visuais seríamos, aqui, capazes de elencar? E se ainda propusesse que fossem femininos e tivessem sua produção mais expressiva datada dos anos 50 para cá?
Benjamin nos ajuda a pensar sobre o dilema da acessibilidade, o movimento de renovação e resignificação do espaço dos museus e o processo de dessacralização desses espaços, que eram vistos como um depósito de obras consagradas onde “tudo que é lá colocado, ao invés de conservado, é condenado à morte”. Ressalta que o sagrado tem desdobramentos contraditórios, pois ao mesmo tempo que instiga a transgressão, cria a interdição. Essa questão foi abordada pelo autor em “A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica”. A possibilidade da reprodução em série, por um lado suprime da obra seu caráter único, de sua aura, por outro possibilita sua democratização.
As forças democratizadoras das novas tecnologias, que testemunhamos hoje, podem intensificar as relações não só dos museus com seus visitantes, mas de todo cidadão com a cultura que o identifica como pertencente a uma comunidade, seja ela local, nacional, latino-americana ou planetária. A digitalização de diferentes acervos culturais pode vir a ajudar no rompimento das estruturas tradicionais, projetando nosso patrimônio cultural no contexto social, enfatizando sua dimensão pedagógica. Pode chegar a ser uma iniciativa que auxilie aos que lutam pela conscientização da função humanizadora da cultura e pela dimensão de direito de todos os cidadãos ao acesso ao patrimônio artístico e cultural da humanidade.
Podemos constatar, a partir de diferentes trabalhos acadêmicos, a dificuldade de transformar a realidade escolar que tem se mostrado, ao longo do tempo, rígida e resistente a mudanças, pela característica de reprodução das condições de produção dominantes na sociedade, que incluem relações hierárquicas de poder, segmentação e burocratização do trabalho pedagógico, gerando práticas descompromissadas com as questões sociais e aprendizagens pouco significativas para as crianças. Esta constatação justifica os esforços que buscam a formação de cidadãos capazes de atuar como consumidores e produtores de arte e cultura, dentro e fora de seu próprio universo cultural.
A concepção tradicional de ensino, restrita à sala de aula, ao professor e aos livros, tem sido geralmente associada à concepção de aprendizagem formal, enquanto as experiências educativas que ocorrem em outros cenários externos à escola com a aprendizagem informal. Mas não são propriamente os cenários que determinam esses tipos de aprendizagem. No que diz respeito à discussão entre educação formal e informal e suas contribuições para a formação artística e cultural, segundo Asencio e Pol, identificar as características do processo informal de aprendizagem, que possam contribuir para mudanças positivas na escola, além de inspirar estratégias pedagógicas formais que permitam, em contrapartida, agregar valor às experiências informais, é um esforço necessário para a transformação das propostas que compõem o cenário da educação.
Novos cenários na educação tomam corpo na atualidade. A sala de aula, mesmo sem perder sua importância, divide cada vez mais com outros espaços e tecnologias a tarefa educacional. A aprendizagem formal e a informal, na contemporaneidade, formam um todo, considerando aspectos cognitivos, de conduta e emocionais. Dentro ou fora da sala de aula podem ser ativados processos eficazes de aprendizagem, desde que haja um planejamento dessa experiência, no qual se projetem intencionalmente passos básicos.
A aprendizagem informal, ligada a contextos culturais, tem um conteúdo estético e lúdico, pretende muito mais o entretenimento e o fruir cultural, apresentando-se de forma muito mais atraente e curiosa. Essas características nos fazem refletir sobre o paradoxo da eficácia do ensino informal frente ao contexto formal que tem o objetivo explícito de aprendizagem, mas que muitas vezes fracassa em seu intuito.
Dessa forma, o acesso a um acervo cultural digitalizado parece se configurar como uma possível ferramenta de disseminação e socialização do patrimônio cultural e artístico. Mas, para isso, a formação cultural permanente dos profissionais envolvidos no processo de educação parece ser estratégia prioritária para os agentes responsáveis pela escola para que possamos avançar na busca de uma qualidade significativa na formação das crianças. A ausência ou falta de continuidade de políticas de investimento cultural que permitam ao professor, em complementaridade à formação pedagógica, o acesso a bens culturais, são dados construídos pelo exercício de uma prática de desvalorização e de descompromissos com uma política social consistente.
Pensar na formação cultural das crianças nos faz, necessariamente, pensar na formação cultural de seus educadores.
A iniciativa de digitalização e de facilitação do acesso pode ser um passo a mais no desafio de incrementar essa formação, tendo em seu bojo a valorização das diversas manifestações culturais e a busca de parceria com as instituições fomentadoras e divulgadoras de a arte e cultura.
Termino as palavras de Sonia Kramer:
“interessa-me que crianças e adultos possam aprender com a cultura e a arte... A experiência com a produção cultural contribui de maneira básica na formação de crianças, jovens e adultos, pois resgata trajetórias e relatos, provoca a discussão de valores, crenças e reflexão crítica da cultura que produzimos e que nos produz, suscita o pensar do sentido da vida, da sociedade contemporânea e, nela, do papel de cada uma de nós.”
Referências Bibliográficas
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